À DERIVA SP

 ANDRÉ BONANI 

Setembro 2020

Ensaio visual produzido por André Bonani a partir de derivas sobre mapas e signos da cidade de São Paulo

Para comprar os prints de "à deriva SP": andrebonani.art@gmail.com

À DERIVA SP 

“Uma cidade: pedra, concreto, asfalto.

Desconhecidos, monumentos, instituições.

Megalópoles. Cidades tentaculares. Artérias. Multidões. Formigueiros?

O que é o coração de uma cidade? A alma de uma cidade?

Por que dizemos que uma cidade é bela ou que uma cidade é feia? 

O que há de belo e o que há de feio numa cidade?

Como conhecer uma cidade?

Como conhecer a sua cidade?”

 

Georges Perec, “Espécies de espaços”

            Há tempos que ensaiava um mergulho cartográfico em São Paulo: entender essa espécie de vidro trincado que é o mapa de minha cidade. Sempre fui adepto à deriva, ao caminhar sem muito rumo por ruas, vielas e avenidas; deixar-se ir no deixar-se ir das coisas, experimentando aquilo que o espaço da cidade e suas personagens disparam em nossa percepção - aquilo que a passagem dos dias vai soterrando em inúmeras camadas de memória, e que por vezes vislumbramos num repente, num olhar, numa conversa: signos mais ou menos ocultos. Toda cidade, afinal, não passa de um palimpsesto: um pergaminho de incessantes apagamentos e inserções, papiro continuamente raspado, sobre o qual sempre se escreve uma vez mais. Agora, porém, com a movimentação restrita por conta da pandemia, me encontrava à deriva dentro de casa. O momento pareceu propício para enfim me debruçar sobre uma série de mapas paulistanos, a mim encaminhados certa vez por um grande amigo arquiteto. Esses mapas, todos datados do século XIX, revelam parte significativa do adensamento urbano do centro de São Paulo e arredores. Incrível mesmo foi constatar, a partir de sua observação, como nosso pisar no asfalto é, na maior parte do tempo, irrefletido. Nossos sapatos deixam diversas marcas pelo chão, nossos gestos e vozes ressoam pelo vazio das ruas. No entanto, não sabemos ao certo o que determina essas agitações interiores que experimentamos ao longo de nossos percursos diários. Não sabemos o que se esconde debaixo de nossos pés, ou nos muitos imóveis que nos cercam. Não quantificamos quantos deslocamentos nos trouxeram até aqui. Um muro que subitamente se ergue numa esquina; a textura de uma calçada; uma árvore que tomba com a chuva; um pássaro com um canto peculiar; as muitas antenas dos muitos prédios; os fios dos postes compondo um tabuleiro; um guindaste rabiscando o horizonte; um varal sem roupas, com um único pregador pendurado: cada um desses elementos esconde um percurso próprio. Algo veio antes de nós; e esse algo, ainda que turvo e indistinto, é exatamente aquilo que permite estarmos aqui, neste exato instante, pensando esses estranhos tipos de pensamentos.

            Assim, teve início a minha deriva. Foram algumas as suas etapas. Tudo começou com o olhar fixo nos mapas: ruas sobre ruas formando alinhamentos insuspeitados. Depois vieram os lápis, seus fragmentos de pó traçando orientações de manchas urbanas. A tesoura também deu as caras: converteu aglomerados de ruas em estilhaços, em unidades gráficas. Desestruturados os mapas, chegara a hora de refazer a cidade. Foi então que peguei a minha bicicleta e parti em expedições pontuais: saía pela manhã cedo, depois de um café preto, de máscara e capacete, perscrutando a minha cidade, os signos que me atiçam, os entroncamentos que me angustiam, os contornos que me determinam. Nesse ponto do processo, me deparei com uma possibilidade: se a cidade é um repositório de formas, texturas e materiais, porque não transpor essa dinâmica plástica aos mapas que havia estilhaçado? Acionei, pois, uma série de refugos de madeira encontrados em caçambas durante jornadas anteriores. Aqueles objetos guardados, com sua própria trajetória e constituição física, dariam ótimas matrizes, capazes de revelar na impressão um pouco dessa tessitura urbana de veios, monolitos e veredas. A eles somei alguns dos carimbos de minha coleção pessoal. A disposição dos elementos estava ali, bastava agora executar essa trama pessoal entre território e imagem.

            O resultado é este aqui presente: uma cidade recortada, retraçada, reimpressa. Uma cidade ressignificada.

 

PROCESSO

(Ensaio por Fernando Banzi) 

André Bonani

é artista visual, pesquisador e educador. Possui o título de mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Linguagens, Mídia e Arte da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Tem formação técnica em Design Editorial pela Escola Panamericana de Artes de São Paulo. Frequentou cursos nas áreas de Ilustração, Desenho, Colagem, Gravura e Tipografia em museus, instituições culturais e ateliês. É membro da Goma Oficina, coletivo interdisciplinar de arquitetos, designers, fotógrafos, artistas e produtores que atua desde 2010 em São Paulo. 

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