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CLEIRI CARDOSO 

O Ensejo a habitar e a simulação de realidades como morada

Eu acho que conheci Cleiri Cardoso(C.C) em 2005 em algum evento em que ela estava expondo seu trabalho. Logo me chamou a atenção. Trabalhos com desenhos bem potentes e um vigor impressionante na construção da imagem.


               Artista plástica nascida no interior do Paraná, C.C formou-se em Licenciatura em Artes Visuais pela faculdade de Artes do Paraná, em 2001, e é mestre em Poéticas Visuais pela ECA/USP. C.C possui um conjunto de trabalhos que impressiona: contemplam ao mesmo tempo um olhar sensível para a cidade e um outro olhar para si mesma. E isso tudo isso dentro de um ritmo constante de experimentação. Dentro de sua poética, a partir de um mesmo tema, gravuras em metal podem se materializar da mesma forma que uma xilogravura sem perder a coerência. Um auto retrato, feito a partir de registro fotográfico, pode servir como base para uma construção imagética muito densa e posteriormente impressa como fotogravura. Apesar de seu trabalho lidar fundamentalmente com a imagem impressa, a reprodução da imagem não é fim, mas meio. Como a própria artista ressalta, C.C não pode ser rotulada como gravurista, pois sua pesquisa e execução artística estão a serviço de suas intenções. Se estivesse restrita às técnicas da gravura, tradicionalmente falando, seu processo criativo estaria limitado. E, de fato, ele vai muito além.


             Chama-me atenção também a seriedade com que C.C conduz sua pesquisa e, somado a isso, sua postura como artista educadora em projetos em que compartilha seu conhecimento. Desde sua pesquisa sobre métodos alternativos não tóxicos até um projeto de intervenção artística em estações de trem, C.C nos ensina e sempre surpreende com a sofisticação de sua poética, mas que só pôde se materializar depois de um árduo empenho na pesquisa e  execução dos trabalhos (muitas vezes imperceptível aos olhos de quem vê o somente o trabalho pronto).


Conhecendo os trabalhos de C.C, não é difícil entender, por exemplo, sua admiração pelo trabalho do artista sul africano William Kentridge. Relembrando o aclamado vídeo Felix in Exile (1994), Kentridge nos brinda com um impactante e brutal desenho (a carvão e pastel seco) em movimento, enquanto nos arrebata com uma poética espetacular, onde o ser humano se mistura com a arquitetura e vice versa, tudo isso envolto a uma atmosfera produzida pelo modo sagaz como Kentridge se utiliza da força que o desenho em carvão pode conter.


              Nas séries de C.C apresentadas aqui, podemos também presenciar essa força intrínseca da matéria a serviço da poética. No entanto, com esses trabalhos, produzidos em diversas técnicas, C.C. nos faz refletir muito sobre a relação entre Homem e Natureza a partir do corpo. Corpo e natureza se embrenham e se fundem em movimento em busca de um sentido para a vida. E, de algum modo, mesmo se tratando de trabalhos bidimensionais, esses trabalhos de C.C acabam estabelecendo um lindo diálogo com as esculturas de Alison Saar, artista que até então era desconhecida por mim e que foi apresentada pela própria C.C durante nossa conversa realizada para esse artigo. Achei muito instigante ver dois trabalhos de duas artistas em pleno diálogo e ao mesmo tempo coerentes e autênticos, cada um a seu modo.


                  Quando C.C diz que interessa a ela acessar os meios, coerentemente, para tornar possível uma ideia, materializá-la, de imediato fica muito claro que o ensejo está no cerne de seu trabalho. Quando C.C nos apresenta a paisagem urbana em suas imagens, ou adesiva, cola plantas impressas sobre a arquitetura, está nos convidando a pensarmos juntos como tornar possível, a partir de quais meios, como ensejar a habitar a paisagem, mesmo que seja a partir de uma realidade fantástica. E quando o corpo aparece explicitamente em seu trabalho, entremeado por plantas, C.C não nos deixa esquecermos que apesar nos compreendermos enquanto “Civilização”, nos somos essencialmente Natureza. 

Otávio Zani

CLEIRI CARDOSO

Trabalhos recentes  

HABITAR A PAISAGEM, 2012/2014

MORADA DA IMENSIDÃO, 2015

CORPO CULTIVO, 2019/2021