ENTREVISTA

ANDRÉS SANDOVAL

Setembro, 2020

MAPA DE SÃO PAULO

Entrevista + Vídeo com Andrés Sandoval sobre seu processo criativo ao desenhar o “Mapa de São Paulo”, produzido como resposta à Chamada 3 : Mapear Mapas do Desestrutura

ENTREVISTA

[Laura Belik] Interpretações e reproduções criativas de mapas e mapeamentos tem sido parte do seu trabalho há anos. Você poderia nos contar sobre alguns de seus últimos projetos e produções que conversavam com esse tema, como a sua proposta original para Bienal de Arquitetura de São Paulo, projeto no Sesc Araraquara, dentre outros?

 

[Andrés Sandoval] O tema dos mapas começou em 2017, de um convite da editora portuguesa Patológico. Eles tem uma coleção de mapas de diversas cidades do mundo e convidam artistas para ilustrar e desenhar as referências das cidades onde moram. Apresentei São Paulo num viés topográfico onde as ilustrações são encenações dos lugares escolhidos. Por exemplo, para desenhar o MASP, marquei duas grandes cachoeiras saindo das suas gárgulas, realçando sua posição de alto de morro; de nascentes de pequenos rios que vão dar no centro.

 

Em 2019, na 12 BIA, recuperei as anotações do mapa e achei uma reportagem que ilustrei para a revista Piauí sobre um grupo de enigmistas que se reúnem no Vale do Anhangabaú. Eles se encontram todas as quartas-feiras naquele prédio bonito, o "Mirante do Vale", numa sala cheia de livros e dicionários ao contrário, onde você procura a palavra a partir do significado, uma loucura! Ganhei deles vários manuais e descobri muita informação sobre enigmas pictográficos, chamados "rebus".

 

Inspirado por essas andanças pelo centro, e da vivência cotidiana no meu ateliê no Largo da Misericórdia, imaginei vestir 8 enigmas pictográficos (como aquele homem-sanduíche) e declamar a solução deles durante uma caminhada no centro histórico - como quem anuncia uma compra de ouro ou uma oferta de almoço.

 

Cada um dos 8 enigmas se referia a uma rua do centro. Por sua vez, cada uma dessas ruas converge para a mesma esquina no Vale do Anhangabaú. Como se vê, a proposta ficou complexa, talvez fosse melhor fazer um livro, ilustrar as cenas, dedicar-se aos pictogramas. Por fim, resolvi apresentar algo mais simples, fiz uma instalação de espelho que refletia o calçadão do SESC 24 de MAIO.

 

[LB] Para chegar em uma versão final (final por ora) do “Mapa de São Paulo” você criou muitas outras alternativas para representar o mesmo espaço. Como foi seu processo criativo, decisões de como delimitar a área a ser desenhada, escolhas de grafismo e etc.?

 

[AS] Fiz mais ou menos 30 desenhos. Comecei usando um mapa que cruzava topografia e o calçadão. Comparei com um desenho rápido que mostra uma vista da Paulista em direção ao centro velho; peguei umas anotações de orientação mesmo, e localizei meu ateliê no centro. Depois tentei encaixar letras: tentei desenhar a cidade só com letras, o nome todo, depois só as iniciais, tentei as letras no formato da praça, tentei uma certa perspectiva. No final, ficou um pouco de cada.

 

[LB]  Mapear espaços é algo que tem varias escalas e camadas. O desafio de se reproduzir a complexidade do espaço em uma única imagem 2D é uma discussão recorrente. Quais influências, parcerias e referências tem motivado a sua prática?

 

[AS] O trabalho de artistas como a Mira Schendel, Leon Ferrari, Saul Steinberg e Lina Bo Bardi me servem de referência. No caso deste mapa do centro, usei da minha experiência de cidade que reúne desde aquilo que leio no jornal, dos conflitos que vejo na rua, dos arquivos visitados...e ponho o desenho pra trabalhar. É uma prática muito direta. No fundo, o mapa é o resultado de uma forma de pensar.

 

[LB] Você mora e trabalha no centro de São Paulo. Sua relação afetiva e cotidiana com o espaço e suas personagens o levam a interpretar os caminhos desta parte da cidade diariamente. Quais seriam alguns outros tipos de mapas e mapeamentos que você tem vontade em se aprofundar, estudar e produzir?

 

[AS] Tenho um plano de fazer um mapa sobre as árvores do centro. Apresentar essas árvores como se fossem ícones arquitetônicos e dar o contexto delas: desenhar sua história, sua rede, seus rios, suas dificuldades, os pássaros que as habitam, as pragas, achar-lhes a idade, organizá-las por estações do ano, mostrar quando florecem, como se decompõem. Conversar com as equipes de manutenção e poda da prefeitura, entender como vai a política de arborização.

 

Por último e totalmente diferente (talvez seja o próximo), gostaria de fazer um mapa do centro de São Paulo pautado em referências negras, outro debate enorme.

 

Veja abaixo alguns dos estudos do “Mapa de São Paulo”: 

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