#OcupaZonaAzul

 

#OcupaZonaAzul

João Pedro Pompeu Melhado reflete sobre as vagas de Zona Azul em São Paulo e como poderiamos melhor utilizar estes espaços da cidade.

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Me conta como fazer distanciamento social e se locomover de forma segura se uma boa parte das calçadas tem menos de dois metros de largura? Não é que falte espaço na rua, ele só é usado para coisas menos importantes. Estocar carros temporariamente, por exemplo. Como explico no estudo A Cidade Estacionada, São Paulo dedica mais de 3.000.000 (três milhões!) de metros quadrados para estacionamento público. São três parques Ibirapuera!

 

Em meio à pandemia, com pessoas receosas de pegar o transporte coletivo e restaurantes e comércios com capacidade restrita, não seria boa ideia usar essa área toda pra liberar espaço pras pessoas? Não sei você, mas eu trocaria uma(s) vaga(s) de estacionamento por calçadas mais largas e seguras, faixas de bike e ônibus, umas cadeirinhas de praia pras pessoas relaxarem, mesas de bares e restaurantes. Sinto que poucas coisas são piores do que destinar espaço público pra uma tonelada de aço poluente ser inutilizada.

 

Pensando nisso, e já que as Prefeituras pouco tem feito pra abrir espaço pras pessoas, Laura Belik, Stella Melaragno e eu resolvemos ocupar “na marra”. Esticamos uma canga, trouxemos um café e ficamos batendo papo numa vaga de Zona Azul.

 

Aproveitamos e trouxemos um bolinho. Dia 1o de agosto foi aniversário de um fato muito relevante: nesse dia, no distante 2014, a Prefeitura de São Paulo aumentou a tarifa da Zona Azul pela última vez. Há SEIS ANOS! No mesmo período, o bilhete do busão já ficou 46% mais caro. Prioridades, né? 

 

Enquanto a gestão municipal privilegia quem tem carro (em geral os mais ricos), em detrimento dos milhões espremidos no transporte coletivo, perdemos dinheiro que poderia ser usado para de forma mais sustentável. Afinal, subsidiar o transporte individual aumenta o trânsito, a poluição e a desigualdade, além dos riscos de acidentes.

 

Essa é uma provocação para sermos pragmáticos (sem deixar a utopia de lado) e resignificarmos o espaço público para aquilo que realmente faz diferença: as pessoas. E se olhássemos para as vagas com outros olhos e objetivos? E se mais seres humanos ocupassem o espaço das máquinas? Fica o convite.

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João Melhado é economista pelo Insper, mestre em política urbana pela Universidade Columbia (NYC), e autor de A Cidade Estacionada

Saiba mais! Veja matéria da TV Cultura com Joao Melhado aqui