ENTREVISTA 

RODOLFO ALMEIDA

Em tempos de comunicação digital, a força da imagem na mídia jornalística ganha espaço. Rodolfo Almeida, jornalista e designer desenvolve infográficos para grandes veículos de imprensa com o intuito de disseminar e transmitir informações com mais clareza aos leitores. Engajado com frentes que vão desde a pesquisa acadêmica, ao jornalismo investigativo, Almeida conta como o papel do design nas comunicações e na visualização de dados pode ser uma ferramenta estratégica para transmitir algo que às vezes escapa ao texto ou à fotografia. 

ENTREVISTA

[Laura Belik] Expressar informações múltiplas e complexas de maneira gráfica é um desafio tanto do campo do jornalismo como do design. Como você começou a desenvolver este trabalho, e quais estratégias você usa para tentar resumir e comunicar as diversas frentes de cada discussão em uma única imagem?

[Rodolfo Almeida] Comecei meu trabalho por meio do jornalismo. Me graduei em jornalismo na PUC-SP em 2015 e ao longo da graduação estagiei em alguns veículos e empresas, mas tinha muito interesse em design e comecei a estudar por conta própria. Quando me formei tive meu primeiro emprego no Nexo Jornal, onde atuei como infografista na editoria de arte, na época liderada pelo Simon Ducroquet, que me ensinou basicamente tudo que precisava para iniciar nessa área. Depois fui trabalhar em outros veículos e daí em diante acabei me envolvendo mais com a área de design, fazendo outros tipos de projetos também fora do meio jornalístico.

O que sempre me interessou mais no design foi como ele se amarrava com a comunicação de informação, e daí o design de informação pareceu um passo natural para me aprofundar — a infografia, visualização de dados, cartografia, ilustração, e todas essas áreas correlatas idem. A relação entre design e comunicação me chamava atenção pela capacidade de transmitir algo que às vezes escapa ao texto ou à fotografia — e existem centenas de estratégias pra conseguir isso: desde usar de convenções cromáticas que seu leitor já faz para associar certos matizes a temperaturas mais altas ou mais baixas, por exemplo, até usar de uma codificação gráfica que desenhe uma forma familiar usando de um gráfico de barras ou linhas, por exemplo.

[LB] Infográficos publicados no meio digital tem a vantagem de não precisarem ser estáticos. A diferentes camadas de cada imagem se sobrepõe ou são substituídas, guiando o leitor/espectador para o entendimento da informação a ser passada. Se por um lado isso facilita a assimilação do conteúdo, pode-se dizer que utiliza de ferramentas para simplificar os principais pontos a ser passados. Em tempos do dinamismo das redes sociais, você acredita serem os infográficos ainda um recurso de apoio a uma pesquisa maior, ou uma estratégia que pode ser lida independente? Como garantir o aprofundamento do leitor/espectador ao conteúdo proposto? 

[RA] A visualização de dados como um todo é uma ferramenta de comunicação essencial no nosso ambiente informacional atual. Não à toa qualquer grande rede social que maneja e orquestra seu feed de notícias há tempos já passou a priorizar maciçamente a informação visual em lugar do texto. Conseguir comunicar uma informação de maneira visual e imediata é uma habilidade indispensável pra se comunicar bem nessas plataformas — e entender o tempo, atenção e o modo de leitura do seu interlocutor também. Nesse sentido, infográficos (que é um termo que foi meio sequestrado pelo marketing na bolha dos blogs do começo dos anos 2000) são muito úteis e precisam ser retomados pra nosso ambiente atual.

É ótimo que tenhamos muitos recursos à disposição na hora de produzir visualizações de dados e infográficos, e a interação é todo um campo de pesquisa muito profícuo e poderoso. Mas, esses recursos têm um custo: tanto de expertise técnica quanto de tempo e dinheiro para desenvolvimento. Bons gráficos interativos demandam horas de trabalho, de preferência com equipes multidisciplinares de desenvolvedores, designers, editores, redatores, etc — e, infelizmente, muitas vezes podem sequer ser utilizados pelo leitor, que prefere navegar passivamente em vez de interagir ativamente com uma visualização. Existe uma série de boas práticas e incentivos à interação que vêm em boa parte do campo de UX/UI, mas no fim acho que o interesse pelo aprofundamento se desperta antes da interação: em uma representação visual que já de cara comunique a história em questão e engaje o leitor.

[LB] Seu trabalho conversa diretamente com questões ligadas a mapas e mapeamentos. Um mapa se propõe a traduzir espaços reais em linhas gráficas. Críticos questionam a fidelidade destes desenhos e suas escolhas. Como você vê o papel dos mapas historicamente? O que mudou nas produções atuais?

[RA] Sou bastante fascinado por mapas históricos e adoro pesquisar mapas antigos e ver como a representação de certas regiões, temas ou paisagens mudou ao longo do tempo. Mas, me fascina bastante também o aspecto formal dos mapas e a tarefa perceptiva que realizamos ao ler eles. Ler mapas já é uma língua natural pra nós à essa altura do campeonato, mas todo mapa tem um certo conjunto de regras próprio para que possamos lê-lo — utiliza de certas convenções ou dobra certas regras quando necessário. Temos tanta familiaridade e disponibilidade de informação cartográfica que sequer registramos mais o quão mágico é que sejamos capazes de olhar pra um desenho de formas praticamente irreconhecíveis e possamos abstrair que aquilo na verdade se trata do próprio mundo em que vivemos, da terra em que moramos. E que daí possamos internalizar esse modo de ver o território.

Não sou um pesquisador da área da cartografia, só um curioso, mas a história da visualização de dados em muito se mistura com a da cartografia e do design de informação como um todo: no fundo são combinados mútuos de convenções de representação que criam um modo novo de se relacionar com a informação e com a realidade.

[LB] Recentemente (2018) seu trabalho para o Pavilhão do Brasil na Bienal de Arquitetura de Veneza entrou para o catálogo da exposição. Conte um pouco como foi essa experiência, e como foi fazer um diálogo direto entre os campos da Arte e Arquitetura.

[RA] O Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza de 2018 se organizou ao redor do tema Muros de Ar, e convidou a equipe de arte do Nexo Jornal (da qual eu fazia parte à época) pra produzir visualizações dentro dessa temática. Acabamos produzindo uma série de infográficos sobre os padrões de imigração no Brasil desde a chegada dos portugueses, usando de dados do Sistema Nacional de Cadastro e Registro de Estrangeiros. Na prática a publicação funcionou como um conteúdo editorial comum que produzíamos no jornal, inclusive publicado online, que foi também incluído no catálogo da exposição.

[LB] Como são alguns de seus trabalhos e pesquisas autorais? 

[RA]  Gosto, por interesse e limitação de habilidades, de tentar comunicar o máximo que posso de uma história usando apenas de imagens estáticas — e tendo trabalhado majoritariamente na web, acabo por optar por formatos que se adequam bem a esses dispositivos de leitura. Alguns trabalhos como esse infográfico sobre a crise de derramamento de petróleo na costa brasileira, ou esse sobre os salários dos magistrados no Brasil sintetizam bem isso: um formato bem vertical que se encaixa com a leitura em celular e que usa a visualização como fio condutor da história.

Mas, gosto também de explorar outros caminhos, e tive a sorte e privilégio de ter várias oportunidades de realizar isso. Pude estudar sobre cartografia e relevos 3D para projetos como a segunda edição da Jacobin Brasil, ou para um relatório do Greenpeace; usar de visualização de dados animados pra explicar a reforma de previdência no Nexo, ou o aumento de crimes de ódio na internet para o The Intercept; me dedicar à infografia ilustrada para falar sobre reservas legais na revista Piauí, ou explicar erupções vulcânicas com diagramas e mapas. Acho que no fim o que me interessa mais é encontrar qual o recurso, representação ou ferramenta que melhor vai comunicar aquela história em particular, e encontrar jeitos de me adequar a ela.

No momento estou iniciando um projeto de mestrado dentro do programa de pós-graduação em Design da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estou estudando como a crise climática é representada por meio da visualização de dados e quais são as estratégias e ferramentas que a visualização têm à disposição para propiciar a percepção desses fenômenos gigantescos em escala e tempo. Tenho a sorte de estar sendo orientado pela professora Doris Kosminsky, que é uma referência em visualização de dados no Brasil e coordena o LabVis (Laboratório da Visualidade e Visualização) de que faço parte também.

Rodolfo Almeida 
é jornalista e designer. Foi infografista no Nexo Jornal e no Vortex Media, veículo de jornalismo político investigativo. Atualmente, é designer de dataviz na Kunumi, jornalista visual no Núcleo Jornalismo e pesquisador do LabVis/UFRJ, onde estuda representações da crise climática na visualização de dados.
Site: https://rodolfoalmeida.info/
Twitter: @rodolfoalmd